Victor Olivatti – Utinga

De um lado tem-se um governo conturbado, com problemas de corrupção e de comunicação com o povo. De outro lado, tem-se a juventude.  Juventude essa, sedenta por um país melhor, que vai as ruas protestar e foge do sistema, vivendo de forma simples, com os olhos voltados ao que a natureza pode oferecer.

A situação retratada reflete tanto na realidade da ditadura, quanto nos dias de hoje. Se lá atrás nós tínhamos Caetano, João Gilberto e Tom Jobim, entre tantos outros, fazendo uma música de excelente qualidade em meio a tantos problemas, hoje, vemos cada vez mais surgirem novos nomes música brasileira, fazendo discos relevantes dentro desse cenário comercial.

Segundo o Google, “Utinga” é o nome dois municípios, um em São Paulo, e um na Bahia. Utinga também é o nome do primeiro disco lançado por Victor Olivatti, que traz ao longo da obra 12 canções intimista, orgânicas, que te transportam –no melhor do sentidos- a época de ouro da bossa nova/MPB/tropicália.

Luz” abre o disco. De forma intimista, é um dueto violão/voz, que na sua simplicidade, soa como que se fosse cantada diretamente ao ouvinte.

Cabeça Quadrada” é dançante, libertadora. É o retrato da fuga que todos acabamos fazendo a rotina diária.“Eu preciso sair / preciso meditar / sair pra qualquer lugar / colocar minha cabeça pra funcionar”.

Samba do Despertar” traz uma das letras mais intimistas do disco. É quase uma biografia de Victor que não se vê como poetista, mas ainda sim, carrega a necessidade de fazer música, contando um breve relato de como surgiu a semente que hoje é o Utinga. “E hoje eu vejo o erro como arte no final” é uma das minhas frases favoritas da obra.

Concha” foi à primeira música a ser lançada. Com ares claramente litorâneos, canta em seus quatro minutos e alguns segundos sobre amor, positividade e tranquilidade ao levar a vida.  Me lembrou um pouco todo o trabalho do Marcelo Camelo (e também é a minha faixa favorita do disco).

Liberdade” é uma bela combinação de teclados, violão e assovios. Cantada de uma forma quase crua sobre a liberdade da alma, e as prisões corporais. Os versos de “eu quero mais liberdade…” ecoam no final da música.

A metade do álbum chega com “Humano”, um ponto alto do disco e com uma bela letra. A melodia dançante vem da improvável soma de violas, sanfona, percussão e apitos. Os versos grudentos vão ecoar na cabeça de muitos.  “Sempre quis que fosse claro / como amor que eu te dei / Quanto mais aprendo / vejo quanto menos sei”.

A segunda metade do álbum se inicia com “Salgado”, um samba tocado na guitarra, e junto a instrumental “Ametista” e a crua balada “A Chuva” mostram a versatilidade do Victor como compositor, brincando com as diferentes nuances que cada faixa apresentar.

Aos que escutam de olhos fechados, “Utinga”, a faixa que leva o nome do disco, é capaz de transportar para o auge do tropicália. É possível imaginar os mesmos versos saindo a boca de Moraes Moreira e toda a sua trupe. Fala sobre saudade de casa e as coisas a qual crescemos acostumados.

Areia” é o começo do fim. Lenta, é uma bela metáfora sobre renascimento. “Caracol” fecha a obra, de forma honesta. A canção que é uma declaração de amor, soa quase como um mix de tudo que o álbum traz.

De forma honesta, “Utinga” é o disco que em tempos de sertanejo universitário e funk, navega entre o samba, a música popular e a tropicália de forma honesta.  Se ontem a história foi feita nas mãos de Gilberto Gil, Caetano e tantos outros que tocavam com o coração, hoje,vemos ela sendo continuada nas mãos de uma geração nova.